sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Jornalistas Terroristas - Expresso



O APEDREJAMENTO da residência de um assessor do Governo e a utilização de um
carro-armadilhado foram alguns dos factos que alertaram a Polícia para o
recrudescimento da actividade dos «skinheads» em Portugal.

Entretanto, há duas semanas, uma das facções mais radicais da «irmandade
ariana» foi aceite na «elite» mundial dos «cabeças-rapadas», os «HammerSkin
Nation», que exige a prática de acções violentas, incluindo matar
«não-brancos».

Em Outubro, foi encontrada na casa de um «skinhead» uma lista com nomes e
mapas das residências de dirigentes da «Opus Gay», do «SOS Racismo» e de
membros da Sinagoga israelita de Lisboa, aparentemente com a intenção de
serem alvo de ataques.

Uma facção dos «skins» terá um acordo com o Partido Nacional Renovador - que
concorre às eleições - através de um projecto designado «Frente Nacional» (
ver foto ).



Skins decididos a matar

Matar um «não branco» é uma das condições do novo estatuto dos «skinheads»

Na manifestação de Sábado passado, as autoridades confirmaram a associação
do PNR e da Frente Nacional, liderada pelos «skins» mais radicais.

O MOVIMENTO dos «skinheads» em Portugal registou, nos últimos meses, um
recrudescimento que preocupa profundamente as autoridades. A constatação é
comum ao SIS, PJ, GNR e PSP, que têm estado no terreno a acompanhar todos os
passos deste grupo extremista.

Há duas semanas, foi atribuído à facção mais radical dos «skins» portugueses
- o Prospect of the Nation - o título de HammerSkins, uma espécie de elite
mundial dos cabeças-rapadas, que se destaca por um elevado grau de
violência, pela capacidade organizativa e pela dedicação à defesa da
supremacia da raça branca. A atribuição individual desta «distinção» depende
de um conjunto de acções violentas praticadas pelo «candidato», entre as
quais o assassínio de um não-branco.

Nos últimos relatórios, as forças de segurança registaram também uma
associação entre o Partido Nacional Renovador (PNR) e um projecto designado
Frente Nacional (a FN, inspirada na Front National Française de Jean-Marie
Le Pen), constituída por neonazis já referenciados, pertencentes à Irmandade
Ariana - uma designação global para as organizações extremistas. Recorde-se
que estas foram alvo de uma operação da GNR em Junho de 2004, em Loures. Na
ocasião, foram detidos 27 cabeças-rapadas e o tribunal mandou instaurar um
inquérito por «crime contra a Humanidade» .

Os investigadores da GNR estão convencidos de que a FN se prepara para se
tornar no «braço armado» do PNR, aproveitando-se da existência legal deste
para promover as suas ideias xenófobas. No sábado passado, uma manifestação
do PNR em Lisboa, contra a entrada da Turquia na UE, serviu para as
autoridades confirmarem esta aproximação.



Depois da operação na «skinhouse» de Loures - que está sob investigação da
DCCB (Direcção Central de Combate ao Banditismo da Polícia Judiciária) - os
cabeças-rapadas não desmobilizaram. Antes, aprumaram a sua organização com o
objectivo de ascenderem à Hammerskin Nation (HSN).

Desde essa altura, as forças de segurança - principalmente a GNR, na zona de
Loures, e a PSP, essencialmente junto às claques de futebol - reforçaram o
controlo sobre o movimento e obtiveram provas de que a ambição de pertencer
à elite mundial dos «skins» os estava a conduzir à violência contra pessoas.

Em Outubro, a PSP apreendeu, numa busca à casa de um «skinhead» de 24 anos,
diverso material que indiciava a preparação de acções criminosas. Entre os
objectos estava uma listagem de nomes e moradas, bem como mapas da
localização das residências de pessoas que, presumivelmente, seriam alvo das
acções do grupo. Na lista constavam os nomes de um elemento da direcção da
Opus Gay, de duas pessoas ligadas à Sinagoga israelita de Lisboa e de dois
activistas da associação SOS Racismo. Depois do primeiro interrogatório, o
indivíduo foi colocado em prisão preventiva, situação que se mantém. Este
caso está ainda sob investigação e, contactada pelo EXPRESSO, fonte oficial
da PSP não quis comentar nem adiantar nada sobre o assunto.

O núcleo de investigação criminal da GNR de Loures, responsável pela
operação de Junho sobre a «skinhouse», é quem tem acompanhado e aprofundado
o conhecimento das movimentações dos extremistas. Foram esses agentes que
confirmaram a atribuição do título HammerSkin aos portugueses a 29 de
Janeiro e logo deram o alerta ao comando-geral sobre o impacto que esse
facto teria no recrudescimento da violência do grupo.

Os mais violentos.

A HSN, fundada em Dallas, nos anos 80, é o mais violento e melhor organizado
grupo de «skinheads» neonazis dos Estados Unidos e da Alemanha, chegando a
constituir pequenos exércitos fortemente armados. É composto quase
exclusivamente por homens brancos, jovens, que defendem a supremacia da raça
branca. Têm sido identificados por ligação a actividades criminais,
incluindo assassínios, «batidas» (caçadas a não-brancos e anti-racistas),
extorsões, cobranças difíceis e tráfico de armas.

A GNR não duvida de que os portugueses agora reconhecidos como Hammers
(«martelos») vão endurecer as suas acções para mostrar «trabalho». Há
suspeitas de que todos os seus membros se fazem acompanhar diariamente por
armas de fogo, soqueiras e bastões. Aliás, foi o que se verificou na
operação de Junho: um dos líderes estava na posse de um revólver ilegal, que
foi apreendido e entregue ao tribunal.

Em Outubro, na sequência de desacatos no centro comercial Alvaláxia
(Lisboa), esse mesmo indivíduo, foi encontrado na posse de uma arma do mesmo
calibre, mas desta vez com a respectiva licença, emitida em Setembro de 2004
pela Direcção Nacional da PSP - ou seja, apenas dois meses depois de lhe ter
sido apreendida a outra, ilegal.



PNR cercado

A IRMANDADE Ariana (movimento «skinhead») portuguesa tem vindo a preparar um
projecto de apoio ao Partido Nacional Renovador (PNR) - partido que se
apresenta às eleições de domingo, defendendo ideias extremistas como o
restabelecimento das fronteiras, a denúncia dos tratados da UE e a
«tolerância zero» para o crime. Segundo uma análise feita pelas autoridades,
esse plano, designado por Frente Nacional (FN), é liderado por um dos
neonazis mais radicais da Prospect of the Nation (agora HammerSkins), detido
pela GNR na operação de Junho, em Loures. Trata-se de um dos protagonistas
do assassínio do cabo-verdiano Alcino Monteiro, em 1995, que chegou a
cumprir dois anos e meio de prisão.

O logótipo da FN tem a forma de uma chama em cornucópia, semelhante ao do
PNR, mas com as cores do HammerSkin Nation. Várias facções de «skins» do
diversos pontos do país já aderiram à FN. O objectivo do movimento é ter uma
voz activa na sociedade portuguesa e os organizadores salientam que têm como
valor essencial a defesa da Nação. Por isso, apoiam o único partido (PNR)
que, no seu entendimento, vai ao encontro das suas ideias, nomeadamente o
nacionalismo e a forte restrição da imigração. A FN quer uma revolução
nacional de mentalidades, dentro das teses nacionalistas.

Para conquistar mais apoios fora dos movimentos de «skinheads», a FN não
discrimina ninguém por causa do seu visual ou corte de cabelo, embora (não
de forma explícita) rejeitem qualquer participação de não-brancos. Para os
investigadores policiais, a FN não pretende recrutar simples simpatizantes
da causa patriótica, mas sim reunir um conjunto de militantes, activistas e
dispostos a agir.

FN ao lado do PNR.



Nos últimos meses, as autoridades tiveram conhecimento de várias iniciativas
do PNR que contaram com o apoio da FN, designadamente na mobilização de
participantes. Isso mesmo aconteceu no passado sábado, em Lisboa, na
manifestação contra a entrada da Turquia na UE. A «manif» foi observada,
fotografada e filmada pelas autoridades, que identificaram vários elementos
da Irmandade Ariana.

Os investigadores souberam também que os líderes da FN têm vindo a impor a
necessidade da sua presença activa no PNR para ter uma base de apoio
partidário e intervir na sociedade civil, à semelhança da congénere
francesa, de Jean-Marie Le Pen.

Nesta altura, as autoridades receiam que a FN, dadas as características
violentas dos seus organizadores «hammerskins», possa vir a tornar-se um
«braço-armado» do PRN - algo muito semelhante ao que se passou com o MAN
(Movimento de Acção Nacional), constituído por jovens salazaristas «skins»
que protagonizaram o assassínio de Alcino Monteiro.

Ataque na casa errada

Em Julho, foi encontrado um carro armadilhado debaixo de um viaduto, em
Loures. As autoridades estão convencidas de que se destinava ao comandante
da GNR que investigou os «skins» na região

NUM dia de Outubro passado, ao cair da noite, tocaram à campainha da casa de
um assessor do Governo. Só estavam a mulher e o filho de 13 anos, que
abriram a porta. Lá fora, um grupo de cinco cabeças-rapadas, que se
apresentaram como amigos do «irmão» Boniek (um operacional «skin», da claque
«Grupo 1143» do Sporting, que falecera dias antes), acusaram o filho de
andar a insultar Boniek e a família. E retiraram-se.

Mais tarde, o assessor, que chegara entretanto a casa, recebeu um
telefonema, em que uma voz se identificou apenas como «o nazi que esteve aí
há bocado». As palavras seguintes deixaram a família aterrorizada: que lhe
iam matar o filho, que «ia sangrar mais que o irmão Boniek». Durante a noite
voltaram, invadiram o quintal da casa, empunhando bastões e gritando e
apedrejando as janelas.

A GNR veio a concluir que o ataque se devera a um «engano» na morada. A GNR
tinha apreendido dias antes uma lista de «alvos a atacar», onde constavam
nomes de grupos «skins» rivais e respectivos endereços, entre os quais o do
assessor. Contactado pelo EXPRESSO, este pediu o anonimato, por questões de
segurança: «Foi muito desagradável o que aconteceu, só queremos esquecer».

Carro armadilhado.

O episódio foi mais um que serviu para confirmar o elevado nível de
violência que os «skins» portugueses estão decididos a praticar. Já antes,
em Julho, um carro armadilhado encontrado debaixo de um viaduto, em Loures,
poucos dias depois da operação contra a «skinhouse» daquela região, fazia
prever este tipo de acções. As autoridades estão convencidas que o engenho
explosivo estava preparado para o comandante do destacamento local, que
liderou as investigações.